domingo, 28 de outubro de 2012

Livro: As Esganadas

Sinopse: Rio, 1938. Um perigoso assassino está à solta nas ruas. Seu alvo são mulheres jovens, bonitas e...gordas. Sua arma são irresistíveis doces portugueses. Com requinte de crueldade gastronômica, ele mata sem piedade suas vítimas e depois expõe seus cadáveres acintosamente, escarnecendo das autoridades.

Livro: As Esganadas
Autor: Jô Soares
Editora: Companhia das Letras
Nº de páginas: 262

Não sou a maior conhecedora de Jô Soares. As Esganadas foi o meu segundo livro do autor (o primeiro foi - oh, surpresa! - O Xangô de Baker Street), mas nunca duvidei de que fosse gostar da leitura. E de fato foi bastante prazeroso ler o novo livro.

Jô tem um toque de irreverência e uma veia cômica muito forte, mas ao mesmo tempo não deixa a história cair no ridículo. O interessante aqui é que o leitor sabe desde o início quem é o assassino e quais as suas motivações. Os únicos que não sabem são os policiais designados para o caso, o detetive português que acabou se envolvendo na investigação e a jornalista que aparece mais para lá da história. E é justamente neste aparvalhamento dos 4 investigadores que mora a comicidade da coisa toda. Os comentários tolos e fora de lugar de Calixto sempre me faziam rir e a qualidade das informações de Tobias Esteves era inegável...ele só não conseguia nada que o aproximasse do criminoso.

Achei particularmente intrigante o fato das vítimas serem gordas, mas sempre belas mulheres. E quem diz que não há beleza também nas pessoas acima do peso?

Aliás, duas passagens da história me chamaram a atenção e sinalizei para que não esquecesse de quota-las:

- Ser gordo ou se achar gordo são duas coisas diferentes - afirma Tobias Esteves. - Minha alcunha em Lisboa, junto aos colegas da delegacia, era Gordo; no entanto não me acho gordo.
- O senhor não é gordo, é só um pouco baixo pro seu peso - declara o diplomático Calixto.
Acho que foi uma das melhores desculpas para o ser gordo que eu já vi....

A outra passagem tirou um pouco o meu sono:

...Toda mulher no mundo acha que precisa perder dois quilos. O que disse já foi repetido em todas as demais línguas faladas no dito mundo civilizado. Sabe como a mulher chega a esta conclusão? Observando-se nas fotos. No espelho, acontece uma correção inconsciente do corpo, e ela apresenta o melhor ângulo de si mesma. Numa fotografia, as pessoas aparecem chapadas no papel. Ninguém faz de si uma imagem real. Nos achamos um pouco melhores do que somos. Por isso é tão comum ouvir a frase: "Estou horrorosa nesta foto!". Geralmente não é verdade.
Ah, espelho, espelho meu, como pudeste mentir para mim por todos esses anos!?

Mas voltando ao livor em si, ele é bem tranquilo de ler, fácil e agradável, mesmo nas horas que descreve os impulsos e manobras do assassino. Por falar nisso, uma coisa me incomodou: o assassino ser usuário constante de drogas. Enquanto era um jovem brilhante, capaz de aprender com perfeição a arte da tanatopraxia e de embalsamento, além de ter um ouvido acuradíssimo e tocar instrumentos clássicos como poucos já existentes, eu o achava um criminoso genial, mas depois que seus excessos começaram a ser descritos...a obsessão, as drogas, o embotamento...fiquei incomodada. 

O final também não foi dos melhores. Eu esperava mais. Tudo foi construído com tanta grandiosidade que o final foi um anti-climax sem tamanho. Ainda assim, o livro merece ser lido e, acredito, nem todos ficarão se sentindo meio enganados no final como eu fiquei.

Uma coisa que deve ser observada é que Jô sempre nos leva para algum ponto diferente da história brasileira. Todas aquelas menções a situações e o uso de nomes conhecidos em situações inusitadas dão um colorido especial ao texto.

Uma curiosidade: eu nunca li Fernando Pessoa e tampouco sou muito conhecedora de suas obras ou mesmo de sua pessoa, mas um ou dois dias antes de começar a ler As Esganadas vi um vídeo da Tatiana Feltrin falando justamente no Fernando Pessoa e explicando várias coisas sobre ele, seus heterônomos, seus escritos e afins, pois tinha lido uma biografia que me pareceu bem  interessante. Assim, quando me deparei com as menções que Jô faz ao poeta em seus livro não me senti uma renomada ignorante. Obrigada, Tatiana, só tenho a agradecê-la.

E já que estou agradecendo, aproveito para agradecer à Andrieza que me emprestou o livro. Acho que é hora de eu colocar mais livros de autores brasileiros em minha quota de leitura anual...

Um comentário:

Ney Pantoja disse...

Bom dia Mica!
Também gosto como o Jô Soares escreve seus livros, adorei o Xangô e ontem comprei as esganadas, o qual irei ler no final de semana, pois gosto de ler um bom livro na minha rede de final de semana.
Recomendo O poderoso chefão, do autor Mario Puzzo, muito rico em detalhes e a viagem que o autor nos remete vale muito a pena.
Adoro comentários sobre livros.
Atenciosamente,

Ney Pantoja - AM.

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